Sábado, Março 26, 2011

tristeza do cronópio

na saída do luna park um cronópio percebe que seu relógio atrasa, que seu relógio atrasa, que seu relógio.

tristeza de cronópio diante de uma multidão de famas que sobe corrientes às onze e vinte e ele, objeto verde e úmido, caminha às onze e um quarto.

meditação do cronópio: "é tarde, mas menos tarde para mim do que para os famas, para os famas é cinco minutos mais tarde, chegarão a suas casas mais tarde, se deitarão mais tarde. eu tenho um relógio com menos vida, com menos casa e menos deitar-me. eu sou um cronópio infeliz e úmido".

enquanto toma café no richmond da rua florida o cronópio molha uma torrada com suas lágrimas naturais.

julio cortázar

Sexta-feira, Março 18, 2011

eu tinha uns 10 anos e sempre gostei de ler e desenhar. um dia, sem motivos, resolvi ilustrar este poema. meia cartolina, minha letrinha discorrendo e um desenho. uma mulher, perfil egípcio sem sombra, nariz tão fino quanto comprido, vestido longo de noite preto, em um banquinho de bar com uma mesinha redonda. sobre a mesa ela segurava um papel com o poema e, ao lado, um drink. vale dizer que bancos de bar amenizaram minha falta de talento em compor movimentos de roupas e pernas, dentre outras questões que ainda amenizam.

minha mãe adorou, mandou colocar moldura e por muito tempo aquilo rolou pela casa, de mudança em mudança, até que um dia se perdeu de vez. era uma época sem fotos, sem registros, mas lembro de cada detalhe e talvez o reproduza um dia. quem sabe com um desenho melhor e uma letra pior. :-))

Todas as Cartas de Amor são Ridículas
Álvaro de Campos

       Todas as cartas de amor são
       Ridículas.
       Não seriam cartas de amor se não fossem
       Ridículas.

       Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
       Como as outras,
       Ridículas.

       As cartas de amor, se há amor, 
       Têm de ser
       Ridículas.

       Mas, afinal,
       Só as criaturas que nunca escreveram 
       Cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       Quem me dera no tempo em que escrevia 
       Sem dar por isso
       Cartas de amor
       Ridículas.

       A verdade é que hoje 
       As minhas memórias 
       Dessas cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       (Todas as palavras esdrúxulas,
       Como os sentimentos esdrúxulos,
       São naturalmente
       Ridículas.)

Domingo, Março 06, 2011

preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

pense nisso: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubís; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. dão a você - eles não sabem, o terrível é que não sabem - dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

julio cortázar

Terça-feira, Março 01, 2011

Poema em três movimentos

I

Nossos gestos eram simples e transcendentais.
Não dissemos nada
nada de mais...
Mas a tarde ficou transfigurada
- como se Deus houvesse mudado
imperceptivelmente
um invisível cenário

II

Eu te amo tanto que
sou capaz de nos atirarmos os dois na cratera do Fuji-Yama!
Mas, aqui,
o amor é um barato romance pornô esquecido em cima da cama
depois que cada um partiu - sem saionara nem nada -
por uma porta diferente.

III

E em que mundo? Em que outro mundo vim parar,
que nada reconheço?
Agora, a tua voz nas minhas veias corre...
o teu olhar imensamente verde ilumina o meu quarto.

Mario Quintana

Segunda-feira, Fevereiro 28, 2011

A Cem Por Hora
Renato Godá

Deixa eu ser seu latin lover
Seu boêmio trovador
O seu croupier comparsa
Seu veneno, seu rancor
Deixe eu ser seu destilado
Seu cabernet sauvignon

Seu spy, seu stripper
Seu peri morto de amor

Na cidade a cem por hora
Com meu chapéu e meu ray ban
Flutuar sobre o asfalto
Sem direção

Deixe eu ser seu massagista
Seu demônio, sedutor
Seu cachorro, motorista
Seu capacho ao cobertor
Deixe eu ser seu analista
Seu mordomo, seu ator
Seu prato preferido
Seu valente domador

Na cidade a cem por hora
Com meu chapéu e meu ray ban
Flutuar sobre o asfalto
Sem direção

Deixa eu ser seu latin lover
Seu boêmio trovador
O seu croupier comparsa
Seu veneno, seu rancor
Deixe eu ser seu destilado
Seu cabernet sauvignon
Seu spy, seu stripper
Seu peri morto de amor

(o leonard cohen brazuca)

Sábado, Fevereiro 26, 2011

era uma adolescente dificíllima. fui expulsa com 14, fugi com 15, aos 20 já era uma rabugenta (hoje, tri-destilada no mau humor da idade). pois bem, eu queria pixar os muros, mas não essa coisa territorialista de hoje, onde as gangues disputam espaços para colocar seus nomes na cidade. o único sentido de se arriscar de noite e escrever coisas na parede é pra que os outros leiam e pensem. palavras de ordem, de guerra, de amor, fodam-se, quaisquer palavras, giletes, retratos.

um dia fugi de noite, pra escrever no muro em frente ao prédio: 'deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance.' vale lembrar que era a perifa dos infernos, legião urbana e roque em geral não era uma realidade, e ter acesso a qualquer coisa diferente era era um garimpo considerável.

então um dia o cruel destino me levou a morar no litoral, cidadezinha tacanha no dia-a-dia e imunda na temporada. morava na perfira, casa marromeno, bairro ruim. na minha rebeldia de adolescente cult (porque me matava pra conhecer música que não tinha acesso) conhecia umas bandinhas e pichei no meu próprio muro: 'tão correto e tão bonito: o infinito é realmente  um dos deuses mais lindos'.

todo dia eu lia aquilo e me perguntava se alguém mais parava pra pensar no infinito, pq pensar em deus é fácil.

(texto que deveria e poderia ter sido escrito há 20 anos, isso é coisa dela).

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011


, originally uploaded by café com prozac.

clique na foto pra ver as outras direto no flickr.

Sábado, Fevereiro 19, 2011

hoje, a gloriosa noite, tem uma hora a mais. é o que mais gosto do horário de verão. e agora, renata, onde vai gastar este momento lisérgico?

despedida do bruno


, originally uploaded by café com prozac.

vai fazer uma falta do inferno, nosso grande filósofo e figura humana.

Quarta-feira, Fevereiro 16, 2011