Sábado, Fevereiro 26, 2011

era uma adolescente dificíllima. fui expulsa com 14, fugi com 15, aos 20 já era uma rabugenta (hoje, tri-destilada no mau humor da idade). pois bem, eu queria pixar os muros, mas não essa coisa territorialista de hoje, onde as gangues disputam espaços para colocar seus nomes na cidade. o único sentido de se arriscar de noite e escrever coisas na parede é pra que os outros leiam e pensem. palavras de ordem, de guerra, de amor, fodam-se, quaisquer palavras, giletes, retratos.

um dia fugi de noite, pra escrever no muro em frente ao prédio: 'deve haver algum lugar onde o mais forte não consegue escravizar quem não tem chance.' vale lembrar que era a perifa dos infernos, legião urbana e roque em geral não era uma realidade, e ter acesso a qualquer coisa diferente era era um garimpo considerável.

então um dia o cruel destino me levou a morar no litoral, cidadezinha tacanha no dia-a-dia e imunda na temporada. morava na perfira, casa marromeno, bairro ruim. na minha rebeldia de adolescente cult (porque me matava pra conhecer música que não tinha acesso) conhecia umas bandinhas e pichei no meu próprio muro: 'tão correto e tão bonito: o infinito é realmente  um dos deuses mais lindos'.

todo dia eu lia aquilo e me perguntava se alguém mais parava pra pensar no infinito, pq pensar em deus é fácil.

(texto que deveria e poderia ter sido escrito há 20 anos, isso é coisa dela).

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