Sexta-feira, Março 18, 2011

eu tinha uns 10 anos e sempre gostei de ler e desenhar. um dia, sem motivos, resolvi ilustrar este poema. meia cartolina, minha letrinha discorrendo e um desenho. uma mulher, perfil egípcio sem sombra, nariz tão fino quanto comprido, vestido longo de noite preto, em um banquinho de bar com uma mesinha redonda. sobre a mesa ela segurava um papel com o poema e, ao lado, um drink. vale dizer que bancos de bar amenizaram minha falta de talento em compor movimentos de roupas e pernas, dentre outras questões que ainda amenizam.

minha mãe adorou, mandou colocar moldura e por muito tempo aquilo rolou pela casa, de mudança em mudança, até que um dia se perdeu de vez. era uma época sem fotos, sem registros, mas lembro de cada detalhe e talvez o reproduza um dia. quem sabe com um desenho melhor e uma letra pior. :-))

Todas as Cartas de Amor são Ridículas
Álvaro de Campos

       Todas as cartas de amor são
       Ridículas.
       Não seriam cartas de amor se não fossem
       Ridículas.

       Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
       Como as outras,
       Ridículas.

       As cartas de amor, se há amor, 
       Têm de ser
       Ridículas.

       Mas, afinal,
       Só as criaturas que nunca escreveram 
       Cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       Quem me dera no tempo em que escrevia 
       Sem dar por isso
       Cartas de amor
       Ridículas.

       A verdade é que hoje 
       As minhas memórias 
       Dessas cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       (Todas as palavras esdrúxulas,
       Como os sentimentos esdrúxulos,
       São naturalmente
       Ridículas.)

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